O boletim Focus desta segunda-feira (23) traz um sinal claro: a guerra no Oriente Médio passou a pesar diretamente nas projeções econômicas do Brasil.
Com o petróleo acima de US$ 100 o barril, mais de 100 instituições financeiras consultadas pelo Banco Central elevaram a estimativa de inflação para 2026 pelo segundo mês consecutivo.
O mercado também passou a esperar cortes menores da Selic — atualmente em 14,75% ao ano — diante do risco de que a alta dos combustíveis pressione ainda mais os preços ao consumidor.
IPCA sobe na projeção pela segunda vez seguida
Segundo o Focus, a estimativa do mercado para o IPCA de 2026 subiu de 4,10% para 4,17%. É o segundo aumento consecutivo na projeção — e coloca a inflação prevista acima do centro da meta estabelecida pelo Banco Central, que é de 3% ao ano.
A meta é considerada cumprida se o IPCA variar entre 1,50% e 4,50%, dentro do sistema de meta contínua adotado desde o início de 2025. Ou seja, a projeção atual ainda está dentro da banda, mas já se afasta do objetivo central.
Se confirmada, a inflação de 2026 ficará abaixo do índice registrado em 2025, quando o IPCA somou 4,26%.
A explicação está no petróleo: o barril opera acima de US$ 100 nesta segunda-feira, impulsionado pelo conflito no Oriente Médio. O encarecimento do crude tende a se traduzir em combustíveis mais caros nas bombas brasileiras — e, por consequência, em pressão generalizada sobre os preços.
Uma semana antes, o Focus já havia revisado a expectativa de IPCA de 3,91% para 4,10% — esta edição representa o segundo aumento seguido na projeção de inflação para 2026, conforme também apontado pelo Tropiquim quando o petróleo acima de US$ 100 começou a mudar a aposta do mercado para o Copom.
Juros: menos cortes à vista
A taxa básica de juros foi cortada pela primeira vez em quase dois anos na semana passada, caindo de 15% para 14,75% ao ano. Mas, com a pressão inflacionária crescente, o mercado passou a prever uma trajetória de redução mais lenta da Selic ao longo de 2026.
O Ministério da Fazenda havia calculado exatamente este cenário: com o barril a US$ 100, a inflação ultrapassaria 4% — projeção que o Focus desta semana começa a confirmar. O cálculo apontava ainda para R$ 96,6 bilhões a mais na arrecadação caso o petróleo se sustentasse nesse patamar.
PIB e câmbio: estabilidade relativa
Apesar do cenário de juros mais restritivos por mais tempo, as projeções para o crescimento da economia não sofreram revisão expressiva. A estimativa para o PIB de 2026 subiu marginalmente, de 1,83% para 1,84% — bem abaixo do resultado oficial de 2025, quando a economia cresceu 2,3%, segundo o IBGE.
Para 2027, a projeção de crescimento permanece em 1,8%, sem alteração em relação à semana anterior.
O dólar também ficou relativamente estável nas estimativas. O mercado manteve a projeção do câmbio ao fim de 2026 em R$ 5,40. Para o encerramento de 2027, a expectativa recuou levemente, de R$ 5,47 para R$ 5,45.
O quadro geral reflete uma economia que cresce pouco, com inflação acima da meta central e juros elevados por mais tempo do que se esperava antes da escalada do petróleo. Na semana passada, o Banco Central cortou a Selic de 15% para 14,75% — mas o petróleo acima de US$ 100 já havia forçado o Copom a reduzir o corte pela metade, de 0,5 para 0,25 ponto percentual, como o Tropiquim noticiou à época.
O impacto mais direto de uma inflação persistentemente elevada recai sobre quem recebe salários menores: os preços sobem, enquanto a renda não acompanha o mesmo ritmo.
